O cenário mundial serve de palco a uma das maiores evoluções na história contemporânea: mudanças governamentais perturbadoras, alterações estruturais cada vez mais rápidas no sector da economia, indústria e serviços, carreiras pensadas numa perspetiva global, trocas comerciais em mercados intercontinentais e a desmaterialização da moeda permitem afirmar que se vive numa era onde a mudança é a premissa principal. Na prática, um dos grandes avanços do século foi a evolução da tecnologia para o que hoje conhecemos. E a evolução da máquina incentivada pela curiosidade humana trouxe-nos a Inteligência Artificial (IA).
Acredita-se que esta deu os seus primeiros passos em 1950 com a publicação do paper Computing Machinery and Intelligence por Alan Turing onde se questionava se as máquinas, de facto, podiam pensar. Naquela época, a tarefa revelou-se bastante árdua. Em apenas 5 anos, três cientistas americanos, Allen Newell, Cliff Shaw e Herbert Simon, davam início a um projeto apelidado de Logic Theorist, onde tentavam replicar o comportamento humano em uma máquina, face à resolução de um determinado problema. Desde então a IA evoluiu graças a contributos de figuras mundiais evoluindo dos bots (softwares que automatizam procedimentos repetitivos) para a Sophia, a primeira cidadã robot do mundo que esteve presente no Websummit e que deu a cara a um anúncio de uma grande empresa de telecomunicações portuguesa, terminando com o Doutor Assistente IA, desenvolvido por uma organização chinesa, que atende pacientes em ambulatório e passa receitas.
As aplicações práticas são variadas e podem ajudar as organizações no processo de criação de valor com uma componente disruptiva, distinguindo-se da sua concorrência. Um estudo recente da Mckinsey Global afirma que a inteligência artificial pode aumentar o Gross World Product em 1,2% na próxima década e que 70% das organizações vão adotar pelo menos uma forma desta aplicação.
Se se olhar puramente para o aspeto económico, as mais-valias são mais do que muitas. As organizações que fizerem esta aposta são detentoras de uma tecnologia que melhora processos, capacidade e produz novas formas de negócio. Questionando cálculos, afirmações e decisões invisíveis ao olhar mais atento de um humano, a IA pode ter uma série de aplicações práticas que melhoram o dia-a-dia das organizações. São exemplos disto: o automatizar trabalho repetitivo de um operário; atualizar diretamente a ficha de um cliente no sistema de CRM; deixar de dispensar várias horas de um colaborar para obter insights tendo por base relatórios quantitativos; novas formas automatizadas de new business; qualificações de leads com base em sistema de scoring reduzindo o ciclo de venda do cliente; o up-sell e o cross-sell mais estruturado, rápido e eficiente, previsões de resultados com base em registos passados e ainda a categorização de perfis de utilizadores tipo. Com todas estas alterações as organizações podem canalizar os seus recursos humanos com tarefas mais valiosas e importantes para o dia-a-dia das organizações. Os horizontes são cada vez maiores dado que a tecnologia evolui rapidamente com cada vez mais aplicações novas e capacidades aumentadas. O sistema económico é dos mais privilegiados visto que existem novos modelos de negócios e novos sistemas de receitas. É obvio que o custo de implementação destes sistemas é elevado, os recursos a serem usados são mais do que muitos e é sempre um projeto a longo prazo, mas desenganem-se os mais céticos, o retorno deste investimento é altamente compensatório.
Como tudo nesta vida existe o reverso da moeda, se se retrata aspetos positivos é imperativo falar-se dos problemas associados à IA. Uma das questões mais discutidas e que é intrínseca a esta análise é o aspeto ético-social: deve a máquina substituir o homem? Sendo que somos nós quem programa a máquina, poderá esta um dia evoluir e ter capacidades humanas, como por exemplo, o livre arbítrio ou deve esta ser apenas uma característica nossa? Poderá um dia a máquina decidir sem ter em conta o perdão, o amor ou ser apenas fria no processo de tomada de decisão executando comandos? Os nossos postos de trabalho não podem vir a ser reduzidos porque poderão existir alternativas robóticas? Qual o impacto da possível introdução de tributação dos robots nas organizações para quem já fez ou pensa fazer investimentos nesta área? E terão os players mais pequenos do mercado capacidade de fazer parte desta transformação ou estarão condenados à extinção?
Esta e outras questões só podem ser respondidas com o tempo. Que ainda há muito caminho para andar temos a certeza, mas se se refletir intensivamente sobre este tema, essas mesmas certezas dão agora lugar a dúvidas. Sabemos que estes mecanismos robotizados vieram para ficar, mas para nós humanos que habitamos este planeta há mais de 200 mil anos, a one million dollar question é: quem irá ficar até ao fim dos tempos? O mestre ou o aprendiz?